“O homem não é nada além daquilo que a educação faz dele.” Immanuel Kant, filósofo alemão
Já se passaram cem anos quando A. Faria de Vasconcelos em sua obra Une École Nouvelle en Belgique, 1915 (uma escola nova) lançou os princípios de Adolphe Ferrière. Passado este período devemos nos perguntar se realmente presenciamos alguma mudança significativa em nossa maneira de ensinar e aprender. Se passaram cem anos desde que se pedia e mesmo se ansiava por uma Escola Nova, diferente, numa época em que se questionava desde os fundamentos até os métodos da escola tradicional. Durante muito tempo na história da educação, se observou que o professorado foi perdendo seu poder de influência tanto no controle das atividades ditas educativas que se encaminhavam para uma autonomia desenfreada do alunado, como, por outros motivos, para a perda de prestígio na carreira docente e consequentemente do prestígio social junto a sua comunidade. Estas transformações especificamente no Brasil, se vê de maneira mais estrutural quando combinamos com a ausência de políticas públicas como planos de carreiras profissionais que se orientem a captar melhores profissionais que estejam disponíveis sobretudo para a educação básica. Estes fatores juntos com outros de natureza social como a violência em sala de aula e a ideia de que a escola poderia assumir todas as demandas próprias da escola e do âmbito familiar, levou as atividades do magistério à exaustão. Isso fez com que muitos educadores se sentissem impotentes diante da sua condição de ensinar. Durante todos estes anos de história, a escola tem agregado e aceitado como missão diferentes situações como por exemplo a educação para a cidadania, para a saúde, a educação para a sexualidade, educação alimentar, a prevenção da obesidade o combate aos vícios, dependência química, alcoolismo, ecologia, proteção do meio ambiente, bem-estar dos menores, proteção doméstica e delinquência infantil entre outros. Segundo alguns autores, assumir todas estas questões, fez com que a escola e seus integrantes sentissem sua própria incompetência por ensinar. E como resultado o panorama da educação no Brasil hoje é de repetição excessiva, abandono escolar e analfabetismo dentro da própria escola. Depois de cem anos da Escola Nova, é importante resgatar, tanto o lugar dos docentes, como sua dignidade e o status em destaque que merecem na sociedade. É necessário ter consciência de mudar o pensamento com relação a importância da carreira docente, assim como o próprio docente em sua busca pessoal de transformação e valorização de si mesmo.
1. O professor que queremos para o Século XXI
Saturnino de La Torre decano da Universidade de Barcelona trata da questão dos docentes do futuro que grifo como os professores do presente que devem ter a consciência das qualidades que precisam aperfeiçoar com relação:
1. A si mesmos
2. Ao processo formativo
3. Aos companheiros e à Instituição educativa
4. À comunidade educativa e aos valores sociais
Sobre o docente o docente do futuro ou do presente muito se fala sobre a importância do professor e da sua relevância para a sociedade pelo papel que desempenha junto à mesma e, em particular quando percebemos sua relevância em nossas carreiras profissionais e na influência que tiveram em nossas vidas. Portanto, se desejamos uma educação de qualidade precisamos urgentemente resgatar o papel deste agente de transformação social que é o professor. Se faz necessário ter consciência da necessidade de mudar o pensamento com relação a carreira docente assim como o próprio docente em sua busca pessoal de transformação e de valorização de si mesmo. Segundo Saturnino De La Torres o PROFESSORADO QUE QUEREMOS tem uma característica INOVADORA E CRIATIVA: “o docente que pensamos para o Século XXI sob a óptica da interação sócio afetiva, ou seja, integradora, construtiva e relacional é principalmente um formador inovador e criativo que facilite o desenvolvimento das potencialidades humanas”. (La TORRE, 2002, p. 81). Para este autor as qualidades docentes a serem aperfeiçoadas são:
1) Com relação a si mesmos:
a) Uma imagem positiva de si mesmo. Consciente ou não, projetamos aos demais a imagem que temos de nós mesmos;
b) Disposição para valorizar o ponto positivo das pessoas e das situações;
c) Tendência a superação e a auto formação e inquietude em buscar inovações e estar aberto a novas ideias;
d) Acreditar na criatividade pessoal. É necessária uma autoconsciência na sua capacidade criativa para que possa criar com seus alunos novas estratégias inovadoras de ensinar e aprender;
e) Atitude para aprender com os erros. O docente criativo aprende a valorizar também as falhas que ocorrem durante o processo.
2. Com relação ao processo formativo:
a) Visão coerente e clara do tipo de pessoa que se deseja formar; b) Possuir uma fonte de consciência epistemológica ou teórica de ensino na formação para a mudança. Não pode ser uma fonte fora de suas expectativas. Deve ser:
• integração conceitual curricular e pessoal. Integrar saberes através de experiências globalizantes e integrar pessoas em grupos mais amplos. Este é, portanto, o princípio da interdisciplinaridade. Cujo objetivo é integrar os saberes, pessoas, grupos e projetos.
* Colaboração e trabalho em conjunto do professor e do alunado;
* Interação. Elemento que facilita todos os processos. É o que permite socializar nossas conquistas.
* Qualidade. É o objetivo que se deseja com a atividade que desenvolvemos. “ A qualidade é fazer bem o que fazemos; a qualidade é serviço aos demais; a qualidade é um compromisso para melhorar sempre; a qualidade é uma resposta positiva; a qualidade é cuidado e compromisso para ser mais eficiente todos os dias (L. Castañeda y Mejía, 1997, p. 22).
• A mudança como organizador conceitual. A mudança é algo permanente e organizador da realidade. Nada é estático.
c) Visão curricular da formação. É muito importante que o docente possua um conhecimento sobre o currículo pois isto permite uma visão mais coerente sobre onde quer chegar e sobre quem se quer formar.
3) Com relação aos companheiros e à Instituição educativa:
a) Espírito de colaboração e trabalho em equipe;
b) Intercâmbio de conhecimentos e de experiências inovadoras entre os companheiros;
c) Estar disposto a participar de projetos de inovação investigação;
d) Contribuir para a criação de uma cultura de centro que avance a o nível relacional coeso e dinâmico;
e) Cuidar das boas relações. Quanto mais o alunado sinta o vínculo entres seus professores e o amor que sentem por sua atividade, melhor será sua aprendizagem.
4) Com relação à comunidade educativa e aos valores sociais:
a) À profissão docente é inerente o dever de promover valores sociais como a tolerância, o respeito às pessoas e à natureza, a defesa da paz e da convivência, entre outros. Quando nos referimos ao docente como um agente de transformação social e sua importância para a sociedade estamos nos referindo a estes valores a que o docente está intimamente associado. É mister resgatar a autoestima e o verdadeiro lugar do docente junto à sociedade, antes de exigir que o que não habilitado para ele, ou seja, uma boa formação e uma carreira promissora que lhe permita se realizar como pessoa e como profissional.
Bibliografia
. Trecho da Tese la Construcción de saberes docentes del profesorado principiante en la educación superior. Anselmo Medeiros
. LATORRE, A., Del RINCÓN, D. Y ARNAL, J. (1996). Bases metodológicas de la investigación educativa. Barcelona: GR92.
. TARDIF, M., LESSARD, C. y GAUTHIER (1999) Formação dos professores e contextos sociais. Lisboa: Rés Ed.
Por Anselmo Medeiros.