Definir o indefinível

Literatura é também o espelho que reflete quem somos, quem fomos e quem poderíamos ser

Se alguém te parar e perguntar: o que é uma cadeira? A resposta é simples. Um objeto usado para sentar. Também não há dúvidas quando nos é perguntado: o que é uma porta? Bom, é um pedaço de madeira com uma maçaneta. Caso você precise responder: o que é um espelho? Uma superfície de vidro que reflete a luz. Ainda mais fácil é falar: o que é o sol? O sol é uma estrela que ilumina nosso planeta, claro. Mas, e se tivermos que responder à pergunta: o que é a literatura? Ao primeiro momento talvez seja difícil responder. Para alguns a literatura é tudo, e para outros pode ser um nada. Para mim a literatura é a cadeira de balanço que você senta para relaxar no final do dia, é a cadeira do bar com seus amigos, é a cadeira desconfortável do seu trabalho, é a cadeira do almoço com a sua família, é a cadeira do hospital do lado da pessoa amada, é a cadeira alta, baixa, de couro, com rodinha, é a cadeira da sala de aula, a cadeira do gabinete, é a cadeira ocupada por tantos escritores. Para alguns a cadeira é o lugar do último suspiro de vida. Literatura é a porta do nosso quarto, a porta de vidro, a porta de ferro, a porta de pedra, a porta invisível, a porta do céu, do inferno, a porta da prisão, a porta para entrar em um lugar sombrio, em um lugar aconchegante, no desconhecido, no esperado, no novo. Mas também é com a porta que saímos. Saímos de casa, do ônibus, do avião, do trem, saímos do nosso primeiro emprego, de uma prova importante. Porta pela qual um vampiro só pode entrar se for convidado. Atrás de uma porta a família de Gregor não sabe, mas há um enorme inseto deitado na cama. Literatura é também o espelho que reflete quem somos, quem fomos e quem poderíamos ser. A literatura é o espelho de Dorian Gray, que guarda todos os segredos e desejos de uma vida, mostrando a beleza e decadência de quem observa. É o espelho que nos permite olhar para dentro e para fora ao mesmo tempo, é o espelho quebrado, espelho de bolso, espelho do salão, espelho que pode ser a porta para outro mundo, é para ele que perguntamos “espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?”, é o espelho do lago, do rio, do mar, é o espelho que nos obriga a encarar a verdade, mesmo sendo desconfortável, e que nos permite sonhar, inventar e renascer. E a literatura é também o calor do sol em dias frios, é o arco-íris depois da chuva, é a luz na escuridão, o reflexo do mar, o gelo derretendo, o chão quente, o suor, o incômodo, o acalento, o conforto. É o sol que alimenta as plantas, aquece os animais, evapora a água, deixa a praia lotada, os parques cheios, é o “ufa, deu sol” naquele dia importante, é o segundo sol que há de chegar, é a dureza do sertão. Para mim a literatura é conseguir definir o indefinível.

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