A cultura está à venda?

Existe uma cena que se repete em lugares muito diferentes do mundo: um grupo de pessoas vestidas com trajes tradicionais dança para uma plateia de turistas com câmeras. A manifestação artística é bonita, e os turistas aplaudem felizes. A pergunta que fica: isso ainda é uma celebração ou já virou um show?

Essa característica é típica do turismo cultural. Essas atividades, inegavelmente, geram renda para artesãos, músicos e cozinheiros que, sem esse mercado, talvez não conseguissem viver do que sabem fazer. Além disso, essas práticas também dão visibilidade a festas e práticas que poderiam desaparecer por falta de recursos. Em muitos casos, foi justamente a chegada de visitantes interessados que convenceu uma comunidade de que o que ela tem vale a pena preservar.

No entanto, nem tudo são flores. Pense no que acontece quando: (1) o calendário de uma festa começa a ser definido pela agenda dos pacotes turísticos; (2) o artesanato local perde seus detalhes para sair mais barato e em maior quantidade; (3) um ritual que era sagrado passa a ter horário marcado para turistas fotografarem. É diferente, não é? Pois é. A cultura continua existindo, mas quem manda nela não é mais a comunidade. É o mercado.

E essa é a questão central, que, não, não tem resposta fácil. Não dá para dizer se o turismo é bom ou ruim, nem dá para romantizar culturas como se fossem frágeis demais para lidar com o mundo. Afinal de contas, todos sabemos, culturas mudam, sempre mudaram e sobrevivem a muitas mudanças. O problema não é a mudança em si, mas é quando ela ocorre plenamente a partir de forças externas e de mercado, sem que a comunidade, que vive aquela cultura, tenha muito poder de decisão.

No fim das contas, cultura pertence a quem a vive. Quando quem decide o que mostrar, como mostrar e a quem são os próprios moradores, o turismo pode ser um aliado genuíno. Quando essa decisão vem de fora, o que sobra pode até ter a mesma aparência, mas definitivamente não tem o mesmo peso.
Autor: Dimas da Cruz Oliveira, professor e historiador

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