A Língua Portuguesa na sala de aula real é constituída de inúmeras perspectivas teóricas, abordagens, reflexões, mas, acima de tudo, possibilidades
– O que é contexto, professora?
Essa foi a pergunta que ouvi, em uma turma de 7.º ano, depois de passar 90 minutos falando sobre a importância de considerar o tal contexto quando for ler ou escrever algum texto. Parei, refleti e senti vontade de chorar: o aluno não tinha entendido absolutamente nada do que eu falei, porque não conhecia uma palavra-chave que, para mim, era habitual. Nesse momento, porém, eu aprendi algo e, desde então, passei a me preocupar com a aquisição lexical dos estudantes, em um movimento de tentar ampliar sua compreensão sobre… o contexto, se me permitem a polissemia no emprego dessa palavra.
Ser professora de Língua Portuguesa é, para mim, mais do que uma função profissional, é uma atuação política no sentido de que compreender o contexto, o nosso idioma, os textos, os ditos e os implícitos, os sentidos e os significados, as funções sociais da linguagem em nossa sociedade, que é centrada na palavra escrita, é uma forma fundamental de nos tornarmos membros efetivos dessa construção social. E eu entendo que é – também, talvez principalmente, embora não só – nas aulas de Língua Portuguesa que esse conhecimento pode ser construído.
E, para isso, a Língua Portuguesa na sala de aula real é constituída de inúmeras perspectivas teóricas, abordagens, reflexões, mas, acima de tudo, possibilidades…
Refletir e aprender sobre o nosso idioma possibilita que ampliemos a compreensão que temos a respeito da nossa realidade, pois é na interação com textos (orais e escritos) que circulam em esferas sociais variadas que nos inserimos efetivamente nesses meios. Assim, as discussões promovidas em sala de aula ganham sentidos e significados quando o conhecimento construído no ambiente escolar ecoa em outros meios sociais ao compreendermos, por exemplo, o quanto um “até” altera o sentido de sentenças como “até 90% de desconto” em uma loja. Algo tão simples, mas que faz diferença – inclusive financeira.
As construções de conhecimento sobre a Língua Portuguesa também permitem que criemos compreensões do que é a realidade. Isso porque se nas aulas focalizamos reflexões linguísticas e gramaticais, também estabelecemos encontros com a literatura. E, nessa interação, constituímos subjetividades, pausamos a realidade vivida e podemos nos distanciar dela para colocá-la em perspectiva, analisá-la e compreender processos pelos quais passamos. Podemos falar de nós mesmos e do mundo, a partir do diálogo com o poético, com o narrativo e com a arte da palavra.
Além disso, a partir das aulas de Língua Portuguesa, podemos mudar nossas compreensões sobre o que é realidade. E eu acredito nisso porque o interesse pela leitura (esta antes das outras competências), pela escrita e pela aprendizagem de modo geral, que foi fomentado em mim nas aulas de Língua de Portuguesa, mudou a forma como eu compreendia a minha realidade. Filha de pais que tiveram que trabalhar desde cedo e cursaram até a 4.ª série do Ensino Fundamental, chegar a uma graduação era um sonho. Mestrado e Doutorado, então, eram coisas com as quais eu nem chegava a sonhar… mas os alcancei e tenho consciência de que foi com muita da inspiração que nasceu nas salas de aula de quando eu era aluna. Assim, a sala de aula real de Língua Portuguesa é, pode e deve ser inspiração.
Pensar na Língua Portuguesa na sala de aula real é pensar em um ambiente altamente complexo e, por vezes, sobrecarregado. Não só com os currículos que se constituem em uma infinidade de temáticas e tendências, mas também com relações de poder e as avaliações externas, que sempre cobram o quanto “o aluno (não) sabe ler”. E é justamente pelas características de complexidade deste meio que precisamos mobilizar abordagens teóricas e metodológicas variadas nesse ambiente real.
Os fenômenos da língua são mobilizados nas aulas de Língua Portuguesa como objetos do conhecimento que, para mim, são dos mais potentes possível – afinal, todo mundo fala seu idioma e utiliza-o o tempo todo. Considerar que todo estudante tem alguma ordem de conhecimento sobre sua língua – ainda que não saiba disso – é fundamental como ponto de partida para pensar a sala de aula. A partir disso, considerar as potencialidades de um diálogo que se vincule a abordagens consistentes e múltiplas é um caminho frutífero. E digo isso porque as demandas de sala de aula requerem que caminhemos entre perspectivas distintas: a abordagem social, por exemplo, é fundamental para pensarmos nos usos situados da leitura, da escrita e da oralidade que os estudantes farão em suas atuações (para além de) na escola; uma abordagem mais cognitiva pode colaborar na formação da competência leitora, por exemplo, ao abordar explícita e sistematicamente o ensino de leitura por meio de estratégias – mesmo nas turmas posteriores à alfabetização; uma perspectiva sociolinguística ajuda a compreender os processos pelos quais as pessoas mudam o idioma que falam e incluir pessoas que, porventura, tenham sido excluídas por sua identidade linguística; e a abordagem gramatical possibilita que os estudantes reflitam sobre seu idioma e os usos que fazem dele e como podem lançar mão, por exemplo, de aspectos estilísticos em situações mais ou menos formais para atingir diferentes objetivos de interação.
Assim, sendo a sala de aula real de Língua Portuguesa um ambiente sociolinguisticamente complexo e heterogêneo, são variadas as perspectivas de que vamos nos valer para atingir os objetivos de aprendizagem e ampliar aquilo que se calhou chamar de competência linguística dos estudantes.
A Língua Portuguesa não se restringe, assim, (apenas) a um conjunto de regras gramaticais que precisa ser decorado e recitado mecanicamente e esquecido tão logo passe a avaliação – que, a rigor, apresenta tirinhas da Mafalda e do Calvin. Ela é um organismo vivo que participa dos processos pelos quais nos constituímos os sujeitos que somos. É, também, um dos principais meios de projeção de nossas identidades, pois a forma como nos apresentamos aos outros diz muito sobre quem somos e, conhecendo profundamente nossa língua, podemos escolher a forma como fazemos essa projeção.
Aulas reais de Língua Portuguesa, por fim, potencializam o que conhecemos a respeito do nosso idioma, mostram possibilidades outras de interação por meio dessa língua e potencializam as formas de compreender, construir e alterar a realidade em que vivemos. Promovem, pois, que entendamos o “contexto” e que não precisemos esperar 90 minutos (ou mais!) para entender o que está acontecendo a nossa volta.