Além do Verbo to Be: A Jornada de uma Professora de Inglês na Educação Básica 

Ensinar inglês no Brasil é, acima de tudo, um ato político. É garantir que a língua global não seja privilégio de poucos, mas um direito de todos

Ser professora de língua inglesa na educação básica brasileira é uma experiência que combina frustrações, superações e, sobretudo, a convicção de que esse idioma pode transformar vidas. Ao longo dos anos, lecionando tanto no Ensino Fundamental II quanto no Ensino Médio, enfrentei inúmeros desafios, mas também testemunhei mudanças significativas no ensino e na forma como os alunos percebem a aprendizagem de uma nova língua.

Um dos maiores obstáculos enfrentados diariamente é a desvalorização do inglês como disciplina essencial. Muitos alunos – e até mesmo alguns pais e gestores – ainda veem a língua como um mero “enfeite” no currículo, e não como uma ferramenta de acesso ao mundo. Essa mentalidade, somada à falta de recursos básicos, como salas superlotadas, ausência de materiais didáticos atualizados e pouca infraestrutura tecnológica, torna o ensino muitas vezes desgastante.

Além disso, a desigualdade no nível de conhecimento dentro de uma mesma turma é um problema constante. Enquanto alguns alunos já tiveram contato com o idioma em cursos particulares ou na internet, outros mal conseguem reconhecer o verbo to be. Planejar aulas que atendam a todos, sem deixar ninguém para trás, exige criatividade e, frequentemente, horas extras de trabalho não remunerado.

Apesar das dificuldades, houve avanços importantes nas últimas décadas. O método tradicional, baseado na memorização de regras gramaticais e na tradução, vem sendo substituído por abordagens mais comunicativas e significativas. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) trouxe uma perspectiva mais atual, tratando o inglês como língua franca e não apenas como uma disciplina isolada.

Atualmente, utilizo ferramentas digitais, como vídeos, podcasts e jogos online, para aproximar o idioma da realidade dos alunos. Redes sociais, séries e músicas também se tornaram aliadas, mostrando que o inglês está presente no cotidiano, seja em uma postagem no Instagram, em um tutorial no YouTube ou em uma letra de rap ou funk.

Ensinar inglês vai muito além de verbos irregulares e da pronúncia de vocábulos. É abrir portas para oportunidades acadêmicas, profissionais e culturais. Um aluno que domina o idioma tem acesso a universidades estrangeiras, melhores empregos e a uma quantidade infinita de conhecimento disponível na internet. Além disso, aprender uma nova língua desenvolve habilidades cognitivas, como raciocínio lógico e criatividade, e amplia a visão de mundo, promovendo empatia e compreensão intercultural.

Tive o privilégio de ver ex-alunos conquistarem vagas em empresas multinacionais, serem aprovados em programas de intercâmbio, seguirem carreira acadêmica internacional ou simplesmente perderem o medo de viajar e se comunicarem com pessoas de outros países. Essas conquistas reforçam o quanto o inglês é, de fato, uma disciplina transformadora.

Apesar dos desafios estruturais, nunca houve tantas formas de aprender inglês. Se antes dependíamos apenas de livros didáticos e aulas expositivas, hoje contamos com aplicativos gratuitos, comunidades online, filmes legendados e até mesmo inteligência artificial para a prática da conversação. O papel do professor, nesse cenário, é orientar os alunos nesse universo, mostrando que o aprendizado pode ser dinâmico e prazeroso.

Ser professora de inglês no Brasil é um ato de resistência: resistência contra a desvalorização da educação, contra a falta de recursos e contra a ideia de que apenas alguns têm direito ao conhecimento. Mas também é um ato de esperança – a esperança de que, por meio de um ensino de qualidade, possamos formar jovens mais críticos, conectados e preparados para os desafios de um mundo globalizado.

A cada aula, renovo minha crença de que o inglês não é apenas uma disciplina, mas uma ferramenta de liberdade. É por isso que, apesar de todas as adversidades, continuo acreditando no poder transformador da educação.

Ensinar inglês no Brasil é, acima de tudo, um ato político. É garantir que a língua global não seja privilégio de poucos, mas um direito de todos. E, enquanto houver um aluno perguntando: “Teacher, how do I say…?”, seguiremos reinventando nossa prática, buscando formação e provando que a educação linguística de qualidade é possível – mesmo diante de todas as probabilidades.

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