História na Sala de Aula Real | Possibilidade de uma conexão entre o ontem e o agora

Em uma sala de aula real, aquela vivida cotidianamente, você precisa conquistar a atenção do seu público, os estudantes

Recentemente, me perguntaram onde me sentia realizado profissionalmente, depois de uma razoável caminhada por diferentes áreas. Respondi que era muito grato por tudo o que havia vivido e aprendido até aqui, mas compreendi que sou, e sempre serei, professor. Gosto de ensinar, de dar aula. Ser professor é algo que se constrói com o tempo, com a experiência de transmitir conhecimento na sua área para o maior número possível de pessoas. No meu caso, como alguém licenciado em História, o primeiro passo é saber contar uma boa história.

Em uma sala de aula real, aquela vivida cotidianamente, você precisa conquistar a atenção do seu público, os estudantes. Contar uma história pode ser um bom começo. Parece obvio, mas é isso. O ensino de História vai muito além da memorização de datas e nomes; exige sensibilidade, criatividade, empatia e consciência crítica. O desafio do professor é mediar o conhecimento de forma que o conteúdo curricular dialogue com a realidade dos estudantes, fazendo com que eles compreendam o passado, reflitam sobre o presente e, com isso, possam atuar de maneira mais consciente na construção de um futuro mais justo.

Um dos papéis centrais da disciplina de História é provocar o estranhamento diante daquilo que, muitas vezes, é aceito como natural. Elementos que hoje consideramos normais, como a política, as leis, a divisão social, o formato das famílias e as religiões, são todos frutos de processos históricos. A sala de aula é o espaço ideal para despertar essa consciência histórica, e isso só acontece quando o professor consegue estabelecer conexões entre o conteúdo e as vivências concretas dos estudantes.

Lembro de uma aula para uma turma de 6º ano, em que falávamos sobre o Egito Antigo. Entre os assuntos, exploramos como o processo de mumificação contribuiu para avanços significativos na medicina. Usei imagens, trechos do livro didático, contei curiosidades e respondi perguntas, tudo dentro do tempo de uma aula comum de 45 minutos. Na semana seguinte, um estudante dessa turma apareceu com o dedo indicador imobilizado por uma tala, resultado de um machucado em um treino esportivo. Assim que entrei na sala, ele veio me mostrar o curativo, contou como foi o atendimento e disse que, no Pronto Atendimento, “ensinou” ao médico que aquele tipo de imobilização tinha origem no Egito Antigo. Segundo ele, o médico se surpreendeu e seu pai ficou orgulhoso da informação. Essa é a sala de aula real: um lugar onde o conhecimento faz sentido porque se conecta com a vida. Um exemplo simples, mas poderoso, de como a História pode impactar o cotidiano. Ensinar é, acima de tudo, marcar vidas.

No entanto, como diz o ditado, nem tudo são flores. Há estudantes que não se conectam de imediato com a História. Isso é natural e esperado. É nesses momentos que precisamos ser ainda mais professores. Explico: é preciso encontrar caminhos alternativos para alcançar esse estudante. Nem todos seguirão o mesmo trajeto, mas todos devem ter a oportunidade de chegar ao mesmo destino: o aprendizado. A sala de aula real exige múltiplas estratégias, diferentes linguagens e, sobretudo, muita escuta.

Nesse cenário, o uso de fontes históricas variadas, como fotografias, mapas, cartas, músicas, filmes, memes, vídeos e até postagens de redes sociais, tudo com a ideia de ampliar as possibilidades de leitura do mundo. Essas ferramentas ajudam a mostrar que a História é construída a partir de múltiplas perspectivas, e não por uma única “verdade”. Além disso, despertam o interesse dos estudantes e os convidam à interpretação crítica, desenvolvendo habilidades fundamentais como a análise, a argumentação e a empatia.

Outro ponto essencial é o potencial da História para fortalecer a identidade dos estudantes. Quando o conteúdo da disciplina aborda a História da comunidade, da família ou da própria escola, os estudantes se reconhecem como sujeitos históricos. Eles compreendem que não são apenas espectadores de acontecimentos passados, mas agentes de transformação no presente. Projetos como a criação de um anuário histórico, entrevistas com ex-estudantes e professores ou registros das memórias escolares são estratégias poderosas para promover o protagonismo estudantil. Além de aproximar o conteúdo da realidade local, tornam o ensino mais próximo e significativo.

A construção da sala de aula real, independentemente da disciplina, passa pelo professor. Ele é o agente de transformação. Afinal, o que é real numa sala de aula é, muitas vezes, o reflexo do momento em que esse educador está presente. Quando o professor se coloca como mediador atento e sensível, tudo muda. O conhecimento deixa de ser algo distante e abstrato e passa a ser ferramenta de leitura de mundo.

Trabalhar com as concepções prévias dos estudantes sobre os temas históricos pode ser um excelente ponto de partida. Quando o professor de História acolhe essas ideias e constrói pontes entre elas e o conteúdo formal, está não apenas ensinando, mas valorizando o repertório de seus estudantes. É nesse movimento que o passado ganha vida na sala de aula, ajudando a compreender o presente e a imaginar outros futuros possíveis.

Por fim, ensinar História na sala de aula real é um ato de crença no seu potencial transformador. Quando bem conduzida, a disciplina contribui para formar cidadãos críticos, conscientes de seus direitos e deveres, e preparados para agir na sociedade com ética, solidariedade e responsabilidade.

A História não é apenas uma disciplina voltada ao passado. Ela é, acima de tudo, uma ferramenta que nos ajuda a compreender o presente e a imaginar caminhos possíveis para o futuro. Em um mundo cada vez mais complexo e em constante transformação, ensinar História com sensibilidade, responsabilidade e compromisso com o diálogo é uma forma de cultivar o pensamento crítico, valorizar diferentes memórias e fortalecer o respeito às diversas formas de existência. Nesse sentido, levar a História para a sala de aula real é, também, um convite à construção de uma sociedade mais consciente, plural e humana.

Darlan Jevaer Schmitt é professor na rede privada e entusiasta do ensino de História, atua também como pesquisador em projetos de História Pública. Desde 2000, trabalha na FURB como técnico administrativo. Mestre em História pela UDESC.

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